Cindy não gostava de cinema. Na verdade, não é que não gostasse, é que tinha trauma. Na infância, ele adorava. Gastava boa parte da mesada indo à matinê, até ficara amigo do bilheteiro, com quem trocava opiniões sobre inúmeros filmes. Naquela época, só o que desgostava ao Cindy era o pai. Por motivos óbvios, afinal, quem é que dá o nome de "Cindy" para um filho homem? É o mesmo que implorar para que o garoto seja eternamente alvo de chacota!
Um dia Cindy descobriu de onde viera seu nome. Seu pai, homem simples, nunca fora ligado às artes. Cresceu na roça, sem cultura, sem televisão, sem teatro e sem cinema. Quando chegou à cidade, ficou maravilhado com todos aqueles prédios fascinantes com eventos culturais dos quais agora ele poderia participar! Na primeira vez que foi ao cinema, assistiu um filme chamado "Cindy e Donna". Não que fosse um bom filme, mas para quem não tem nenhum comparativo, foi a sensação memorável de uma vida. Achou o filme estupendo, os atores fenomenais e as atrizes lindíssimas, mas uma atriz em especial lhe tocou o coração. Seu nome era Sue Allen, e a personagem, é claro, "Cindy".
Jurou que a sua filha se chamaria assim, tamanha foi a fascinação. Só que em vez da filha veio o filho, e assim nasceu o trauma do Cindy com o cinema, tamanho o desgosto de descobrir a origem do malfadado nome.
A mãe, que queria que seu filho se chamasse Fernando, nome do seu avô materno, contava que tentara de todas as formas dissuadir o homem da idéia:
- Fernando é tão bonito! E tem um significado tão importante pra mim!
- Eu dei a minha palavra. Vai ser Cindy.
- Coitado do garoto! Pensa em tudo o que ele vai sofrer na escola!
- Vai ajudar ele a ser forte e superar as dificuldades. - respondia com desdém o Seu Ermecindo, pai do Cindy.
- Pelo menos bota Allen então! É o sobrenome da atriz!
- Não! Eu jurei que ia ser Cindy! E palavra é palavra! - bradava ele, impacientado.
Até o escrivão tentou dar uma sugestão, quando o Seu Ermecindo foi registrar o filho.
- Cindy? O senhor não prefere um nome mais comunzinho? José, Fabrício, Luís?
O Ermecindo titubeou por um segundo. O garoto tinha mesmo cara de Luís.
- Palavra é palavra! Bota aí, Cindy! Com "y"!
O Cindy desde então não entrou mais num cinema. Se isolou do mundo e se afundou nos livros e computadores. Não tinha amigos ou namorada, tinha apenas vergonha. Ouvia Johnny Cash e não via televisão. Foi assim até os 22 anos, quando descobriu que a vida não era tão ruim: conheceu, pela internet, uma garota loura, filha de um norueguês fã da série televisiva "Randi e Ronny's Restaurant". Se chamava Ronny, mas mentia o nome. Chegara a providenciar uma identidade falsa, mas não usava, pois mal saía de casa. Tinha horror a televisão. Nunca tinha ido ao cinema. Mas confessara, certa vez, a Cindy, em uma das inúmeras vezes em que trocaram confidências reais pelo mundo virtual, após algumas doses de um velho Chivas surrupiado do armário do pai, ter um pequeno desejo contido de conhecer um cinema. Tinha ganas de ver um filme, qualquer que fosse, pois tinha momentos em que a clausura lhe causava um torpor infinito. Palavras dela.
Já se ia o ano de 2006 quando o velho bilheteiro da matinê, avistando o mesmo menino que outrora lhe atrapalhava o serviço com longas conversas cinéfilas, acenou-lhe com a cabeça. Cindy trazia um sorriso no rosto, um anel de prata na mão direita e uma bela loura na mão esquerda. Compraram duas entradas, como faziam todo sábado, e adentraram o cinema. Ao se afastarem, o bilheteiro ainda pôde emendar:
- Luís! Fernanda! Bom filme!
Cassio Cons, 06/11/2007
Wednesday, November 7, 2007
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2 comments:
Meu primeiro conto. Produzido on demand para o concurso literário da Feira do Livro de Porto Alegre.
Aguardo as críticas.
Cara, tu me roubou o domínio "suavemarimagno" mas é válido... desde que continue escrevendo! Bom conto, espero ler mais deles! Abraço!
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